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O cérebro, da ciência pura à aplicada

O cérebro, da ciência pura à aplicada



Neurociências e energia são os temas principais da nova edição da revista Estudos Avançados, da USP.

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Neurociências é o tema do dossiê da edição número 77 da revista Estudos Avançados – publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP –, que foi lançada com palestra do Professor Emérito da USP Fábio Konder Comparato sobre “Direitos humanos e a Comissão Nacional da Verdade”. O debatedor foi o advogado Marco Antônio Rodrigues Barbosa, da Comissão de Justiça e Paz de São Paulo.
Outra seção da edição discute a questão das fontes energéticas adequadas para o Brasil, com artigos voltados para a energia eólica, que “surge como uma das alternativas limpas e sustentáveis dos próximos milênios”, afirma o editorial da revista.
Também há textos com fundo ético-político, que examinam a dimensão da justiça na destinação dos royalties de petróleo, os direitos dos trabalhadores rurais na agricultura canavieira e a crescente e perversa financeirização da economia brasileira nos marcos de uma não superada dependência.
Em entrevista, Fábio Konder Comparato trata da sua luta pelos direitos humanos. A revista publica ainda artigo de Otto Maria Carpeaux com reflexões sobre o romantismo de Sarmiento, em que a cultura se casa com a política.

 

revista estudosCapítulos – O dossiê Neurociências contou com a colaboração do professor Luiz Roberto Giorgetti de Britto e apresenta temas não só de pesquisa pura como também suas aplicações terapêuticas. Traz discussões sobre o possível tratamento da doença de Parkinson, do mal de Alzheimer e da epilepsia a partir de uma ótica transdisciplinar. Trata dos medicamentos receitados para controlar a dor, aborda o risco das catástrofes e sua possível previsão, como o caso do acidente de Goiânia envolvendo uma fonte de Césio 137, em 1987, apresentado sob uma ótica teórica e empírica.
Questionando como interpretar as novas descobertas das neurociências, o que elas significam, que mudanças causam e até onde nos levam, o primeiro artigo, “Tempo de cérebro”, do professor Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mostra que a neurociência fascina cada vez mais pessoas pela possibilidade de compreensão dos mecanismos das emoções, pensamentos e ações, doenças e loucuras, aprendizado e esquecimento, sonhos e imaginação, fenômenos que nos definem e constituem.
Ribeiro afirma ainda que mais de cem anos depois da descoberta do neurônio, já entendemos que consciência não é uma coisa nem um lugar no cérebro, e sim um processo de fluxos iônicos distribuídos por várias regiões cerebrais. Ele apresenta várias abordagens para entender os fenômenos cerebrais como o envelhecimento, a educação, as drogas, o retorno científico à psicanálise e o problema da consciência, e finaliza o artigo afirmando que o tempo do cérebro prenuncia mudanças importantes no modo como crescemos, vivemos e morremos.

cerebrosistemaO artigo que mostra que as células gliais também são importantes para o entendimento do cérebro é discutido por Flávia Carvalho Gomes, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefe do Laboratório de Neurobiologia Celular, Vanessa Pereira Tortelli e Luan Diniz, doutoranda e mestrando da UFRJ, respectivamente.
“Glia: dos velhos conceitos às novas funções de hoje e as que ainda virão”, mostra que as células gliais, constituintes do tecido nervoso juntamente com os neurônios, foram consideradas até pouco tempo células de suporte do cérebro, passivas e à margem do seu funcionamento. O artigo discute os avanços acerca do conhecimento sobre os astrócitos, o mais abundante tipo glial, que contribuem para o entendimento do funcionamento cerebral.
Os autores apresentam evidências da relação entre disfunções gliais e doenças neurodegenerativas e desordens neurológicas, discutindo o potencial papel dessas células na elaboração de abordagens terapêuticas para o sistema nervoso adulto.

 

 

Energia – A adoção de energias alternativas tem sido amplamente buscada desde a década de 1970 e as preocupações ambientais se tornaram o maior motor para a busca de alternativas limpas de produção de energia. Entre essas alternativas, a energia eólica é que vem despertando grande interesse nas últimas décadas e para tratar disso Moana Simas, mestre em Energia pela USP, e Sergio Pacca, vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade da USP, no artigo “Energia eólica, geração de empregos e desenvolvimento sustentável”, quantificam a geração de empregos diretos e indiretos promovida por essa energia e comprovam que será a energia que irá contribuir decisivamente para o desenvolvimento sustentável do País. “Até 2020, serão gerados 195 mil empregos, e 70% desses são diretos, a maioria na construção civil, com grande potencial para a criação de empregos em localidades rurais.”
Suzane Vieira, antropóloga e doutoranda da Universidade Federal do Rio de Janeiro reconta o acidente com o Césio 137, em Goiânia, pesadelo que não se encerra com a contaminação radiológica, mas se estende a um processo judicial, médico-científico e narrativo de identificação e reconhecimento de novas vítimas.
Suzane mostra que o drama ocupa um lugar central na dinâmica do evento radiológico ao estender seus limites, modular sua intensidade e atualizá-lo a cada nova narrativa. “Césio 137, drama recontado, é um experimento textual dessa pesquisa e busca relatar uma história baseada em personagens e acontecimentos reais extraídos de depoimentos reportados em diversas narrativas sobre o acidente radiológico.”
Na seção Entrevista, o Professor Emérito Fábio Konder Comparato explica o que o levou a militar pelos direitos humanos a partir da década de 1970. “Fui convidado por d. Paulo Evaristo Arns a integrar a Comissão de Justiça e Paz, que acabara de fundar”, ele conta.
Foi a partir desse trabalho que sua orientação intelectual no campo jurídico mudou sensivelmente, levando-o progressivamente para o campo do direito constitucional, dos direitos humanos e da filosofia do direito.

Revista Estudos Avançados, número 77, publicação do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP (telefone 11 3091-1675), 348 páginas.

 

Sobre Paulo Roberto Machado